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A prova mais difícil


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O coronavírus escancarou problemas centrais do nosso sistema educacional: a enorme desigualdade de acesso a tecnologias, a necessidade de formação dos professores, a falta de atenção aos aspectos emocionais no aprendizado, a inexperiência das famílias para apoiar o trabalho da escola. Uma das preocupações está no que ocorrerá com adolescentes e jovens: a repetência e o abandono escolar já eram altíssimos e existe forte risco de aumentar esses números. A tudo isso se soma um ministério da educação ausente há vários anos, deixando o ensino à deriva.

A aprendizagem pós-pandemia é o maior desafio da história da educação brasileira. Pode ser a oportunidade para repensar o projeto de país, que necessariamente passa por uma educação de qualidade. E para isso, não dá para continuar fazendo tudo do mesmo jeito, é preciso buscar caminhos novos.

O futuro do ensino é híbrido: parte presencial, parte online. Porém, quando as aulas foram suspensas e as crianças ficaram em casa, as fragilidades vieram à tona, desde a falta de internet ou computador até das competências necessárias para estudar a distância, como motivação, disciplina e foco. Temos uma geração conectada, mas ligada mais a jogos e redes sociais. É preciso universalizar o acesso à internet e investir na alfabetização digital.

Os docentes foram dormir professores de sala de aula e acordaram professores online, sem os recursos nem a metodologia apropriada a essa modalidade. Foram verdadeiros heróis, mas é preciso equipá-los com os recursos e os métodos necessários para o aluno do século XXI.

O papel da família na aprendizagem é determinante e aí também há que mudar. Em países de alto desempenho educacional, boa parte dos pais tem formação acadêmica, enquanto no Brasil só 33% dos adultos terminaram o ensino fundamental. A Coreia do Sul, que era um dos países mais pobres do mundo e hoje tem uma renda per capita três vezes maior do que a nossa, mudou porque investiu seriamente na educação, e isso incluía capacitar as famílias para acompanhar o trabalho escolar dos filhos. Isso é ainda mais necessário aqui, onde as crianças ficam na escola pouco mais de quatro horas por dia.

O currículo tem que mudar, passando a incluir habilidades socioemocionais, colocando foco no bem-estar dos estudantes, ajudando-os a viver de forma equilibrada num mundo complexo. Isso é, em outras palavras, aprender seus direitos e deveres, ter pensamento crítico, capacidade de diálogo, compromisso com a construção de uma sociedade justa. E, evidentemente, dominar as competências essenciais de português, matemática e ciências. Como no atual sistema educacional brasileiro isso não está acontecendo, e os jovens saem da escola sem saber ler, fazer contas ou escrever bem, há que se implementar novos métodos de ensino, novas formas de avaliação, novos modos de formar os professores.

O ano de 2021 começa com uma série de paradoxos, tais como: precisamos cumprir protocolos de higiene e prevenção na volta às aulas, mas 46% das escolas públicas brasileiras não têm saneamento básico. Nesse cenário, espera-se que o ministério assuma de uma vez a liderança, conquistando investimentos e garantindo que sejam bem aplicados. Muito do que foi dito aqui está em planos engavetados. Há um trabalho imenso a fazer, por isso os futuros gestores desta área precisam ser profissionais com ideias novas, conhecimento do que deu certo em outros países e capacidade de multiplicar experiências brasileiras de sucesso.

Por Andrea Ramal

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